Além do Inspiramais, desenvolve projeto em comunidade indígena no Pará/Foto: Divulgação ONDM
Por Elisa Marina
Da coleção primavera-verão 97/98, que seria apresentada pela primeira vez em Curitiba, até os dias de hoje, o mundo passou por grandes transformações, da exploração do espaço à medicina, dos modos alternativos de nos comunicarmos através de plataformas digitais à bioimpressão, por outro lado, o planeta está mais quente, a Amazônia, muito mais explorada, e crimes contra a mulher, à comunidade LGBTQIAPN+, às pessoas negras e às crianças crescem assustadoramente. E foi naquele contexto, nos idos de 1997 quando a Covid-19 estava muito longe do horizonte, que, munida de um pequeno gravador (a modernidade da época), entrevistei para a revista Vogue o estilista Walter Rodrigues, o artista por trás da referida coleção. À época, sua marca tinha menos de dez anos, e ele já tinha nome e sobrenome nas passarelas do Brasil e do exterior.
Dez anos depois, em 2007, faria parte de um seleto grupo de estilistas escolhidos para o primeiro volume da Coleção Moda Brasileira, editada pela Cosac&Naify. Além de Walter, completam o quinteto, Alexandre Herchcovitch, Gloria Coelho, Lino Villaventura e Ronaldo Fraga. O livro conta com textos dos jornalistas Mario Mendes e Eva Joory. “A gente vem de um país que não tem memória, onde tudo se perde. E a Cosac&Naify naquela época já entendia a moda como um documento de história”, explica Walter Rodrigues em entrevista exclusiva, agora de posse de um smarthphone.
“Walter Rodrigues é o estilista de corte afiado, de extenso repertório de moda, das referências históricas e multiculturais, dos materiais preciosos, da elegância delicada, da atitude cool e de uma indisfarçável malícia rock’n’roll.
Não me lembro exatamente em que momento nos conhecemos e nos tornamos amigos, mas sei que eram meados dos anos 1980. Walter chegara a São Paulo pouco mais de um ano antes e trabalhava como assistente de Clô Orozco, em sua marca Huis Clos.”
Mario Mendes
“Conheci o Walter pessoalmente quando me designaram para escrever sobre ele. Fui então ao seu ateliê, na rua Cesário Mota, na Santa Cecília. O começo do nosso papo foi nosso amor por São Paulo, ele de Herculândia, eu do Rio, ambos curtindo as maravilhas da metrópole. Foi, a princípio, um encontro profissional. Como jornalista, sei identificar pessoas que não ficam à vontade na presença de um repórter e que não gostam de responder às perguntas, por mais interessantes que sejam. Tímido e desconfiado, Walter não fugiu à regra. Ao longo da conversa, foi ficando mais à vontade. Descobrimos que tínhamos algo em comum: a paixão pela cultura pop, pelo rock e, sobretudo, nossa devoção por The Smiths e Joy Division. Soubemos que graças a essas bandas, de alguma maneira, nossas trajetórias estariam ligadas. Trocamos impressões, experiências, histórias. Ele, fiel frequentador de clubes lendários como Madame Satã, e eu, jornalista e curiosa, assídua fã de shows de rock”.
Eva Joory
Para Walter, alimentar um olhar saudosista é um fator importante para a moda. Ele cita documentários disponíveis nos serviços de streaming sobre estilistas internacionais, como Balenciaga e Dior. “Isso é para o jovem que compra Balenciaga e acha que é uma marca qualquer, [no entanto] o que eles querem dizer é que essa marca tem mais de cem anos e ela tem um valor, então vou contar para esse jovem como foi o começo dessa marca para que eles entendam por que uma roupa da Dior, [um casaco] custa 200 mil euros, por exemplo”.
Walter não esconde a sua paixão pelo oriente, mais precisamente por Japão e China. Nos desfiles, peças inspiradas nos antigos samurais, diferentes padrões de estampas e chapéus dos soldados nipônicos, e não seria diferente quando provocado a citar seus estilistas preferidos. “Os meus japoneses que com mais de 80 anos continuam trabalhando, que são Yohji Yamamoto, 81, e Rei Kawakubo,82. Tem o Junya Watanabe que é simplesmente deslumbrante”. Inclui na lista, aqueles a quem considera gênios da moda. “Gosto muito de Rick Owens, do Glenn Martens, que fez [na última quinta-feira] o desfile da Maison Margiel, que pra mim é um gênio. Galliano é um gênio. E eu adoro ver desfiles das escolas de Londres”. Sobre a moda feita no Brasil, ele é categórico. “Aqui, eu gosto muito do Leandro Castro e do Mateus Cardoso, que são as novas gerações, o resto eu não gosto de nada”.
“Moda não é para amador, moda sem discurso não é moda, é produto. Produto você tem no [bairro paulistano] Brás, na [rua] 25 de março, no [bairro paulistano] Bom Retiro, na Zara, na Renner, na Riachuelo, na C&A. Roupa, qualidade, história, propósito é só quando realmente você constrói toda uma estrutura, não só de narrativa, de entrega, de verdade, de transparência, que eu acho que o Mateus e o Leandro têm”.
Walter Rodrigues
Walter Luiz Vieira Rodrigues nasceu em 13 de dezembro de 1959, em Herculândia, cidade do interior de São Paulo, e cresceu na vizinha Tupã, uma região basicamente dominada pela agricultura. “Eu fui uma criança muito feliz. Sou o último filho de uma família de três irmãos, perdi meu pai muito cedo, somos uma família muito simples de agricultores. Minhas irmãs saíram de casa muito cedo para trabalhar, estudar, e isso foi muito bom porque elas me deram condições de estudar, sou muito grato a elas. E a minha essência foi a minha mãe, com quem eu convivi grande parte da minha vida, porque elas [as irmãs] foram embora muito cedo para estudar, e eu fiquei com a minha mãe, morei com ela até os meus vinte e três anos”, destaca.
“Com dezoito [anos de idade] fui pela primeira vez num bar gay, e aí eu vi que era normal, o que pra mim parecia tão conflituoso, tão complicado, aqui [em São Paulo] era tudo normal. Aí eu voltei pra casa e disse para ela [sua mãe], eu sou o seu filho, eu te adoro, mas eu sinto isso, eu sou isso, e eu não vou mudar. Se você concordar comigo, vou continuar sendo o seu filho, honrando o seu nome, se não, tchau, até logo”, relembra o passado, para com orgulho citar Zeca, seu companheiro de trinta anos.
Walter se diz politeísta, e se considera um questionador, característica que traz da infância, e o que acabou gerando conflitos dentro de casa, principalmente com a mãe, que de católica tornou-se protestante. “Na minha casa sempre tinha almoço para o pastor, e eu lembro que quando eu tinha doze anos, uma vez o questionei sobre quem havia assinado a Bíblia, porque os gregos escreveram a mitologia grega, e é tão maravilhosa quanto. E a minha mãe ficava desesperada por eu ficar colocando o pastor contra a parede. Eu falei sobre Darwin. E ele me perguntou se eu acreditava que descendia do macaco, ao que eu respondi: eu não, nós. E minha mãe: ‘já para o quarto’”.
Com quase 66 anos de idade, Walter nos ensina a sermos estrangeiros em si mesmo. Você não pode se acostumar. Você vai ao banheiro e não conta quantos passos dá. Você sai da sua casa e vai para o trabalho, você não olha para a árvore, a cor do Ipê, e agora é a época do Ipê roxo, ou então não tem flor nenhuma, ou tem uma névoa. Ninguém presta atenção nisso, sempre tem alguma coisa diferente acontecendo. Então eu estou sendo sempre estrangeiro, e isso pra mim é fascinante. Com os japoneses eu aprendi a beleza do feio, que é de um antagonismo extremante forte, mesma coisa na África. Eu fiz uma coleção inspirada em Palmares, onde Zumbi viveu. E quando eu fui para Pernambuco, eu levei a minha cartela de cores, que era cinza, bege, marrom. E aí as costureiras olharam e perguntaram se aquilo ali tinha a ver com o verão, e eu disse que sim, porque a minha África é triste, a minha África não é alegre, ela tem outras cores. E foi o primeiro desfile do Fashion Rio onde eu tinha vinte e cinco garotas que eram entre negras e morenas. Eu sempre tive modelos negras no meu desfile, mas um casting inteiro de mulheres negras eu só tive no Rio em 2011.
“A minha casa é um mix de Japão, China com África. Na realidade eu deveria ter sido antropólogo, pois a minha paixão é pelas pessoas, pelas culturas. Ir para a Guatemala, ir para a China e fazer uma coleção baseada nessa sensação de ter visitado esses dois lugares", exemplifica.
Inspira mais, Walter
Quando completou 20 anos de marca, em 2012, ele encerrou a fase estilista. Como já trabalhava desde 2003 com a Assintecal (Associação Brasileira de Empresas de Componentes para Couro, Calçados e Artefatos) como coordenador do Fórum de Inspirações, em 2011, em uma viagem pela Escandinávia, decidiu dedicar-se somente à pesquisa, foi então que mudou-se para Caxias do Sul, e por lá abriu a Galeria 12, um espaço que conta com acervo de peças homônimas e muitas aquisições assinadas por grandes nomes da moda mundial.
Atualmente coordena o Núcleo de Design do Inspiramais, um Salão de Design, Inovação e Sustentabilidade em que a cada semestre apresenta o lançamento de mais de mil materiais desenvolvidos para os segmentos de calçados, confecção, móveis e bijuterias, projetos especiais e palestrantes que inspiram inovação e sustentabilidade. Com a Assintecal e o Sebrae, Walter desenvolve um trabalho na terra indígena dos Borari, na região do distrito de Alter do Chão, no Pará. O propósito é “investigar todos os símbolos que levam a gente a considerar a iconografia do bioma amazônico. Todos os símbolos, tradições, todas as formas de diálogos que a gente tem entre a floresta, as pessoas e a biodiversidade, criando assim um sistema de conexão pra gente pensar no futuro tudo isso. Na escola dos Borari, juntamos uma professora de Nheengatu que é a língua dos Borari, outra de Português, e o professor de desenho, e nós convidamos cinco anciões da comunidade para contarem histórias, e os alunos reescreverem e ilustrarem essas histórias. Isso vai virar um livro”, explica Walter, com o mesmo carisma e generosidade que conheci em 1997.
